Café Pessoa

Sobre o café a conversa pôde-se intelectualizar por completo.
Alexander Search, Entrevista com Alberto Caeiro.

No imaginário coletivo temos as imagens de Pessoa, sentado na Brasileira ou no Martinho de Arcada, gravadas na “memória fotográfica das nossas retinas”. Em Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, de Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, são muitas as entradas em que Pessoa se refere, no Diário, de fevereiro até abril de 1913, às tertúlias e encontros literários no café Brasileira. Mas quais são os trechos do Livro do Desassossego em que o escritor faz referência ao café? De que forma o faz? Estas perguntas vieram ao encontro do projeto de pesquisa de Cecília MagalhãesFragmentos em Prática, que está a investigar, entre outros aspectos, as funcionalidades de pesquisa e leitura no arquivo digital LdoD e a interação utilizador-plataforma. Assim, após aproveitar um curso lecionado por Cecília na Universidade de Coimbra sobre funcionalidades do arquivo, decidimos criar uma edição virutal temática com fragmentos escolhidos da obra de Pessoa que tematizassem o café e que apresentamos neste post.

Depois de utilizar as ferramentas de pesquisa, criamos a edição “Café” no arquivo LdoD, em que selecionamos 18 fragmentos. O poeta português tematiza o café de 4 formas diferentes: o Café como bebida, o Café como espelho social, o Café como espaço e o Café como janela à imaginação. Os trechos estão repartidos por tais taxonomias de forma homogênea:

A seguir, uma amostra dos trechos selecionados:

Café como bebida
“Mas, de repente, e no próprio imaginar — que fiz com o auxílio de um café e aguardente —, uma impressão súbita me atacou o sonho: senti que teria pena”.

Café como espelho social
“Comparados com os homens simples e autênticos, que passam pelas ruas da vida, com um destino natural e calhado, essas figuras dos cafés assumem um aspecto que não sei definir senão comparando-as a certos duendes de sonhos — figuras que não são de pesadelo nem de mágoa, mas cuja recordação, quando acordamos, nos deixa, sem que saibamos porquê, um sabor a um nojo passado, um desgosto de qualquer coisa que está com eles mas que se não pode definir como sendo deles”.

Café como espaço
“Quando depunha o jornal sobre a mesa do café, já refletia que o mesmo, na sua esfera, poderia dizer o caixeiro de praça, mais ou menos meu conhecido, que todos os dias almoça, como hoje está almoçando, na mesa ao fundo do canto. Tudo quanto o milionário teve, este homem teve; em menor grau, é certo, mas para a sua estatura. Os dois homens conseguiram o mesmo, nem há diferença de celebridade, porque aí também a diferença de ambientes estabelece a identidade. Não há ninguém no mundo que não conhecesse o nome do milionário americano; mas não há ninguém na praça de Lisboa que não conheça o nome do homem que está ali almoçando”.

Café como janela à imaginação
“Do terraço deste café olho tremulamente para a vida. Pouco vejo dela — a espalhada — nesta sua concentração neste largo nítido e meu. Um marasmo, como um começo de bebedeira, elucida-me a alma de coisas. Decorre fora de mim, nos passos dos que passam e na fúria regulada de movimentos, a vida evidente e unânime. Nesta hora dos sentidos estagnarem-me e tudo me parecer outra coisa — as minhas sensações um erro confuso e lúcido —, abro asas mas não me movo, como um condor suposto”.

A classificação por taxonomias dos trechos selecionados deriva de uma leitura da obra que não deixa estar isenta da subjetividade própria de qualquer classificação. Como nos lembra Pessoa, também no Livro do Desassossego: “os classificadores de coisas, que são aqueles homens de ciência cuja ciência é só classificar, ignoram, em geral, que o classificável é infinito e portanto se não pode classificar. Mas o em que vai meu pasmo é que ignorem a existência de classificáveis incógnitos, coisas da alma e da consciência que estão nos interstícios do conhecimento”. Para além do grau de arbitrariedade que apresenta qualquer classificação, a arquitetura conceptual (a arquitextualidade segundo Genette) que norteia o grupo de trechos, permite trabalhar com eles dentro da lógica do arquivo digital tanto lúdica quanto educacional, bem como academicamente, e não necessariamente de forma excludente.

Nesse sentido, podemos comparar, por exemplo, os textos de Pessoa-Soares sobre o café com os poemas de Álvaro de Campos nos quais o café também é tematizado: “Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras”; “Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro…”; “Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!”; “Através do ruído do café cheio de gente“; “Discípulo, como comovidamente sou, do meu mestre Caeiro“; “Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas“; “Ode Triunfal“; “Passagem das horas” e “Ultimatum“. Tomamos alguns excertos como exemplo:

Através do ruído do café cheio de gente
Chega-me a brisa que passa pelo convés
Nas longas viagens, no alto mar, no verão
Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio —
Sacudido regularmente pela hélice palpitante —
Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo).
E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluro-mar
E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência.

E de Ode Triunfal:

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Tanto “Através do ruído do café cheio de gente” como “Grandes cidades paradas nos cafés,/ Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas” apresentam diferenças significativas em relação aos trechos do Livro do Desassossego. Nos poemas de Campos, os cafés são marca de modernidade e são caracterizados como ruidosos. A estética futurista está presente nas referências ao café no sentido em que Jaime Barón, em “Aspectos Futuristas en la poesía francesa de vanguardia” no livro El Futurismo en Europa y Lainoamérica: orígenes y evolución, designa o Futurismo, a saber, como movimento ao exterior em detrimento da procura de interioridade característica do simbolismo. No Livro do Desassossego, a tensão entre interior e exterior se decanta pela introspecção. Assim lemos: “uma chávena de café, um cigarro e os meus sonhos substituem bem o universo e as suas estrelas, o trabalho, o amor, até a beleza e a glória. Não tenho quase necessidade de estímulos. Ópio tenho-o eu na alma”; e em um outro: “às mesas dos cafés de cidades visitadas descobri-me a perceber que tudo me sabia a sonho e a vago. Cheguei a ter às vezes a dúvida se não continuava sentado à mesa da nossa casa antiga, imóvel e deslumbrado por sonhos”. O foco não está tanto na materialidade do sonido dos cafés e sim na descrição das sensações que o café como bebida, como espaço, como espelho social ou como janela à imaginação desperta.

Depois desses devaneios na cidade de Londrina, outrora conhecida por ser a cidade do café, ouro verde do Paraná, aproveitamos para recomendar o acesso ao arquivo digital, mergulhar nas funcionalidades do site e seguir o material preparado pela Cecília para tal efeito. As utilidades são múltiplas, como comentávamos antes: lúdicas (como é o caso desse post), educacionais (é uma ótima ferramenta para utilizar em sala de aula com os alunos) ou académicas.

Costa Brochado e Fernando Pessoa no café Martinho da Arcada

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