Taxonomia filosófica no Livro do Desassossego

Os termos mais utilizados por Pessoa são: vida (763), ser (534), alma (412), nada (334), outros (264), ser (261), sonho (250), mundo (233)

No passado outubro se celebrou, na Fundação Calouste Gulbenkian, o Congresso Internacional Fernando Pessoa, no qual participei com uma comunicação intitulada “Uma taxonomia filosófica para o Livro do Desassossego”. O texto pode ser consultado nas atas do Congresso, publicadas pela Casa Fernando Pessoa.

Com o trabalho pretendeu-se analisar, no corpus do Livro do Desassossego, os conceitos filosóficos sensação, realidade e pensamento, derivados do estudo de especialistas na dimensão filosófica da obra de Pessoa, como José Gil. O trabalho faz parte da pesquisa de pós-doutoramento “A dimensão filosófica e crítica do Livro do Desassossego nas suas representações e a sua influência no pensamento (do) contemporâneo. Da modernidade à pós-modernidade”, que visa realizar um levantamento das relações filosóficas presentes na obra de Fernando Pessoa, quer no que diz respeito às relações intertextuais, quer no que diz respeito à articulação de temas ou conceitos filosóficos presentes no Livro. As dimensões de Pessoa como leitor, como escritor e como pensador estão imbricadas ao ponto de poderem ser entendidas só conjuntamente. Nesse sentido, são utilizadas ferramentas taxonômicas do arquivo LdoD (https://ldod.uc.pt/) para tentar responder a como está estruturada a “cogitação escrita” dos conceitos, usando um termo do próprio autor, enquanto texto. A seguir alguns excertos do texto apresentado no Congresso:

Foi realizada, no corpus do LdoD, uma análise mediante o programa Quanteda, que utiliza a linguagem R de programação, orientada à análise e visualização de dados. Nesse caso, os passos a seguir foram: preparar o corpus, selecionar os conceitos, fazer a procura, visualizar os dados e fazer uma leitura dos resultados. Contou-se assim as palavras mais utilizadas no Livro do Desassossego e se especificou as ocorrências semânticas dentro dos campos semânticos definidos no início: sentir/pensar. Os termos mais utilizados por Pessoa, sem contar conectores (artigos, pronomes, etc.) são: vida (763), ser (534), alma (412), nada (334), outros (264), ser (261), sonho (250), mundo (233), outro (198).

A contagem de termos mostrou a relação de frequência e a probabilidade de ocorrências entre ambos os campos e demostrou a relação entre “pensar” e “sentir” dentro do corpus do Livro do Desassossego. Com a edição virtual, onde constam marcadas as palavras mediante ferramentas de taxonomização, pretendeu-se oferecer uma relação da constelação conceptual dentro da obra pessoana.

Aquilo que se tentou mapear mediante a identificação das redes intertextuais, por meio das redes taxonômicas e, na próxima fase da pesquisa, através das redes pós- textuais é o passado, presente e futuro do texto pessoano na sua articulação conceptual e filosófica no trânsito da modernidade à pós-modernidade.

O pensamento enquanto heterogénesis, que emerge nas interações entre as diferentes redes de correspondências, parece explicar o fingimento criativo pessoano, que se nutre das redes de leituras, das redes conceptuais que Pessoa convoca e das redes textuais que sua escrita representa, com as quais o poeta consegue realizar a tradução não linear da tradição para criar uma constelação de filosofias que ecoam com o pensamento (do) contemporâneo.

O texto completo pode ser consultado nas Atas do Congresso pubilcadas pela Casa Fernando Pessoa.

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