Albert Balasch: “Tudo o que não produz retorno imediato é descartado”

Un hombre llega tarde, editado por Kriller71 Ediciones (2022), apresenta uma antologia bilíngue (catalão-espanhol) com poemas de Albert Balasch selecionados por Aníbal Cristobo

No mês de abril, entrevistei ao poeta catalão Albert Balasch para a Revista de Letras. Conversamos sobre poesia, escrita, linguagem e literatura, como se o tempo houvesse parado em algum bar de Barcelona em 2010. Traduzi para o português uma parte da entrevista que pode ser lida em sua totalidade aqui.

Reler os versos de Balasch à luz do contexto atual é uma experiência que coloca o leitor perante o sentido de ser no tempo. Uma escrita que, desde o final, interroga o silêncio de Deus e do homem para dizer que escreve porque já não pode rezar:

Os homens vivem há muito tempo,
se reúnem sob um mesmo teto,
porque esse teto os haverá de enterrar
e morrem escondidos e sozinhos,
inclinados para uma câmara que é, do ar,
o mérito do submetido ao mérito.
Também, como eles, temos reivindicado a fé
ao nosso entorno mais estreito
sofrendo uma claridade desfeita de anjos
que apenas nos ofereceram
a fome que merecemos (p. 13).

Un hombre llega tarde, editado por Kriller71 Ediciones (2022), apresenta uma antologia bilíngue (catalão-espanhol) com poemas de Albert Balasch selecionados por Aníbal Cristobo. Além da seleção de poemas, o livro inclui a publicação de As Execuções e A Caça do Homem, que pela primeira vez é publicado inteiramente em espanhol. A edição abre com um capítulo dedicado a produções inéditas e raras, no qual pode-se encontrar desde o roteiro à curta-metragem “Afuera”, até uma peça radiofónica.

Albert Balasch (Barcelona, ​​1971) publicou um romance – A fora (1999) –, três livros de versos –  ¿Què ha estat això? (2002), Decaure (2003) e Les execucions (2006) – e o CD Hans Laguna e Albert Balasch Fan dissabte (2008). Em 2009 publica Reviure e La Caça del home. Venceu o oitavo Prêmio de Poesia Sant Cugat em memória de Gabriel Ferrater com a coleção de poemas La caça de l’home. Em 2016 publicou El Quadern del Frau e em 2022 Un hombre llega tarde.

“É uma breve escuridão, na oportunidade do mundo, milhares de mortos respiram. Todos eles – cada um deles – têm o carrasco atrás deles. […] Mas, com certeza, você não viu nada. Você não ouviu nada. O mundo havia acabado, ali, na sua frente. A imensidão devastada. Os abençoados. A analogia repetida. Sábado”

As Execuções

Como você entende a escrita?

Em La Caça del home trabalho com a imagem do Rei Lear que fala desde o final. Não entendo a poesia de outra forma que não seja falar desde o final, como se tivesse a morte ao lado. Não gosto de escrever para me divertir ou para curtir a língua. Isso é muito difícil para mim. Eu sempre escrevo desde o final. Se houvesse de morrer amanhã, o que diria? o que deixaria? Quando criança, sempre tive essa sensação. Pode parecer arrogante, mas não é para ser, é o lugar onde me coloco para escrever. Fico fascinado com a ideia de alguém que passa a vida escrevendo e ainda não sabe como fazê-lo. Tenho a sensação de que nunca se consegue dizer o que se quer dizer.

Ao ler Um homem chega tarde e revisitar As Execuções ou A Caça do Homem senti a atualidade dos versos no contexto em que vivemos. Por exemplo, para citar alguns, estes versos de 2006: “É uma breve escuridão, na oportunidade do mundo, milhares de mortos respiram. Todos eles – cada um deles – têm o carrasco atrás deles. […] Mas, com certeza, você não viu nada. Você não ouviu nada. O mundo havia acabado, ali, na sua frente. A imensidão devastada. Os abençoados. A analogia repetida. Sábado”.

Às vezes se diz que sou obscuro ou fatalista, quando a realidade, teimosamente, parece não me negar. Temos pequenos momentos, oásis, de felicidade, mas no fundo somos um desastre de uma espécie. Talvez tenha muito a ver também com a linguagem, porque é um problema de consciência, do que somos capazes de fazer e de estar tão separados da natureza. Com a linguagem fazemos tudo e destruímos tudo, ela nos liberta e nos condena.

“A banalização conquistou praticamente todos os cantos da nossa existência”.

Parece que não vamos além dos versos de Hölderlin e da pergunta de Adorno.

O paradoxo é justamente que as perguntas de Adorno e Hölderlin são respondidas por si mesmas. É evidente que os poetas são necessários em tempos de crise. A esses problemas ou questões que arrastamos da modernidade se somam outros que são nossos. Tenho a sensação, talvez pela idade, que a banalização conquistou praticamente todos os cantos da nossa existência. Tudo o que não é útil, tudo o que não produz retorno imediato é descartado. Há uma predominância da aparência, da superficialidade, em que há acesso a muita informação, mas nada parece ser conhecido em profundidade. Sinto a crise nas humanidades todos os dias na escola, onde poucos alunos são capazes de realmente ler e compreender um texto. A leitura que lhes permite um livro parece ter sido reduzida a só a alguns. Isso é visto no sistema educacional quando se ensina mais a buscar a informação do que a aprender com ela. Saber procurar informação é necessário, mas depois é igualmente importante saber lê-la.

“Damos o melhor de nós mesmos quando não há nada a fazer. É como se não fossemos poupados da vergonha de não poder mais. A humilhação, porém, será chegar ao fim, exibir nossas melhores virtudes até a secura e perceber que não servimos nem para viver. E perceber isso será encontrar o destino da indignidade, que é o destino”.

A Caça do Homem

(Revisão do português por Amanda Massaro Moco)

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